Mais uma Calamidade na Ucrania


Ataque à barragem de Nova Kakhovka pode fazer com que contraofensiva ucraniana estagne, tornando avanços no sul difíceis. Mas Rússia insiste em culpar Kiev e argumenta com a água que chega à Crimeia.
06 jun. 2023, 21:38 no Observador
Uma faca de dois gumes. A inesperada explosão da barragem e da central termoelétrica de Nova Kakhovka, situada na margem oriental rio Dniepre, traz vantagens estratégicas para a Rússia, num plano meramente teórico. Trava o ímpeto mediático da alegada contraofensiva, impede a Ucrânia de avançar no sul do seu território e obriga a uma reformulação dos planos que Kiev tinha para recuperar os territórios perdidos. Ainda assim, Moscovo não assumiu a autoria do ataque, lembrando que o ataque à infraestrutura também acaba por prejudicar as localidades que ocupa no país vizinho, nomeadamente a Crimeia. E as autoridades russas têm aproveitado exatamente esse argumento para apontarem o dedo aos ucranianos.
À luz da estratégica militar, a decisão até pode fazer algum sentido. Contudo, noutros domínios, a explosão da barragem constitui um acidente que gera consequências muito graves para o meio ambiente e para as populações locais — a última contabilização dá conta de que milhares de pessoas já tinham abandonado a região de Kherson, onde se localiza a infraestrutura. O Presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, chegou mesmo a classificar o sucedido como um “ecocídio”, um ato ilegal que origina a destruição total ou parcial dos ecossistemas.
Os ataques a barragens, uma técnica militar que já foi utilizada outras vezes ao longo da história, destrói a fauna e a flora das zonas envolventes, assim como obriga à retirada de pessoas por conta das cheias. Neste caso, a principal região afetada é Kherson, mas também originará impactos em Zaporíjia, onde está localizada a maior central nuclear da Europa e que utiliza a água armazenada na infraestrutura de Nova Kakhovka para arrefecer os reatores. Para já, a Agência Internacional de Energia Atómica (IAEA, sigla em inglês) está a avaliar os danos, se bem que tenha destacado que não há “qualquer risco de segurança iminente”.
