É talvez a maior mudança das sociedades da Europa no nosso tempo: em 2008, segundo o Eurostat, 12,2% dos residentes entre os 25 e os 54 anos nos países da UE tinham nascido no estrangeiro. Para os historiadores do futuro, será o grande tema; para nós, infelizmente, não é coisa sobre que se possa falar. Nos noticiários, só emerge quando há mais uma tragédia de afogamentos no Mediterrâneo, ou quando há desordens nos subúrbios, como a semana passada em França. Mas de resto, é praticamente impossível debater as migrações. É um assunto entregue à histeria e à paranoia, sobretudo no que diz respeito aos migrantes de fora da Europa. Os radicais aproveitam-nos para denunciar o “racismo sistémico”, e os nativistas para denunciar a “substituição da população”. Mas isso só é assim porque os líderes políticos deixam que seja assim, fingindo que não há problemas nem dúvidas, a não ser para os extremistas.
Dizem-nos: precisamos de gente. É verdade: as sociedades europeias já não se reproduzem como conviria às suas economias e modelos sociais. Mas fará sentido tratar a imigração como único meio de mobilizar mão de obra, sobretudo pouco qualificada, quando, segundo o Banco de França, só 60,5% da população francesa entre os 25 e os 54 anos com baixas qualificações tem emprego?
Dizem-nos: devemos auxiliar quem precisa. Sem dúvida: faz parte do que somos, e é do nosso interesse. Mas será auxílio a tolerância de migrações desreguladas, a pretexto de proteger os “refugiados”? Essa tolerância fez prosperar um tráfico de pessoas que todos os anos mata gente nas fronteiras marítimas da Europa. Em que medida esta lotaria da morte prova grandeza de alma? E, a outro nível, será também auxílio subtrair os mais qualificados aos países em vias de desenvolvimento, e assim empobrecê-los? No Gana, segundo a BBC, faltam médicos e enfermeiros por causa dos recrutamentos do SNS britânico.
Rui Ramos no Observador

