Nos últimos dias, em Dresden, cidade alemã bombardeada há quase 80 anos por ingleses e norte americanos, foi publicado um estudo acerca da polarização política afetiva. Os cientistas concluíram que a esquerda se polariza afetivamente principalmente com questões ambientais e a direita com questões de imigração.

Concluiu-se que pessoas mais velhas, com graus de educação mais elevados, mais rendimentos e residentes em grandes cidades têm emoções negativas mais fortes face aos que pensam de maneira diferente. Para além disso, concluiu-se também que, em média, os que se assumem de esquerda polarizam-se mais do que os que se assumem de direita. Aqueles que votam em partidos de esquerda, extrema-esquerda, verdes ou ecologistas demonstraram-se substancialmente mais polarizados. Contrapondo-se a esse comportamento, aqueles que votam em partidos cristão democráticos ou conservadores demonstraram-se menos avessos às pessoas com opiniões diferentes ou contrárias às suas.

Será que faz sentido que a esquerda seja emocionalmente mais polarizada? No extremo esquerdo do espectro político encontramos o populismo de esquerda que nos poderá dar algumas respostas. A teorização do populismo de esquerda propõe a defesa do dissenso, cordões sanitários aos demonizados opositores políticos, obstáculos para chegar a negociações e o uso das emoções em detrimento da razão. A dinâmica conflitual do populismo de esquerda existe tanto perante o exterior como no interior. Isso explica porque é que, da mesma forma que Chantal Mouffe, Slavoj Žižek caracteriza o “nós” do populismo de esquerda como internamente conflituante e não homogéneo.

O conflito permanente existe graças à negação de categorias essencializadoras como a categoria de classe que definiu o marxismo até que o pensamento soixant-huitard o viesse transformar. Os desenvolvimentos da psicanálise, da linguística e da desconstrução levaram ao abandono de qualquer definição essencialista da própria esquerda e levaram-na a abraçar a revolução permanente de inspiração trotskista. É neste âmbito que a teorização populista de esquerda, permanentemente antagonística, faz com que a esquerda dependa do seu contrário para se definir. Como Alexandre Franco de Sá aponta, o populismo de esquerda define a sua identidade exogenamente enquanto negação do seu opositor. A identidade do populismo de esquerda afirma-se na medida em que nega o outro, seja ele a casta, a elite, a oligarquia ou o status quo, o neoliberalismo ou os que procuram consenso racional.

Face ao paradigma de pós-democracia descrito por autores como Colin Crouch ou Jacques Rancière, ao verem que os cidadãos têm acesso aos procedimentos democráticos sem que isso garanta uma democracia viva, os teóricos populistas de esquerda defenderam a necessidade de politizar o espaço público. Mais: não só politizar como politizar emotivamente. Para sair da falsa democracia, da «democracia sequestrada, condicionada, amputada» como Saramago descreveu, o populismo de esquerda valoriza o antagonismo em que as emoções ocupam um lugar primordial para que se politize o espaço público e, consequentemente, se secundarize o lugar da racionalidade (que é vista como responsável pela despolitização).

Num contexto de fragilidade democrática e de polarização emotiva das opiniões, o aprofundamento da politização do espaço público impossibilita o questionamento crítico das verdades individuais ou tribais. Dentro deste novo paradigma de politização e polarização afetiva do espaço público, o diálogo negociante entre as partes torna-se diminuto. A democracia abandona a possibilidade de gravitar em torno da verdade ou conhecimento. Ela gravita em torno da doxa. É a opinião pública, à esquerda e à direita, fabricada de variadíssimas formas e tendo as emoções como grande arma para pôr um elefante dentro de uma garrafa de vinho, que ganha eleições democráticas. Talvez tenha sido sempre essa a grande virtude e fragilidade da democracia, a saber, que ela está na esteira da filodoxia, não na esteira da filosofia, como apontara Alexandre Franco de Sá.

De qualquer forma, o valor dado, na democracia de hoje, à opinião e o lugar privilegiado das emoções nas discussões políticas aparecem-nos como uma grande fragilidade.

A teoria do populismo de esquerda, nomeadamente com a empresa do Pós-Marxismo e a sua abordagem discursiva focada nas emoções, aprofunda esta debilidade. Acreditam que é necessária a criação de uma fronteira transversalmente populista para eliminar o consenso neoliberal e a via escolhida para tal intento é a criação de um antagonismo, de inspiração schmittiana, entre amigos e adversários. Não se atenta contra a vida, apenas se combatem as ideias. Mas apenas se combatem as ideias dos que não são inimigos (mas sim adversários), pelo que a categoria de inimigo não desaparece, é expulsa.

Tendo as emoções um papel central para a transformação do antagonismo que mataria o inimigo num antagonismo que só mata ideias, bem como um papel para definir o povo como oposto da elite e dos que estão à direita, o populismo de esquerda acaba por ser assumidamente emocionalmente polarizado.

Esta adoração dos afetos acaba por exacerbar o fechamento da discussão em bolhas acríticas das suas crenças. São lugares sem abertura perante o futuro, que nos levam, como Susan Neiman aponta, para a prisão da marginalização em que o foco não está naquilo que fizemos ao mundo, mas naquilo que o mundo nos fez. Esta polarização afetiva, que o estudo do Mercator Forum Migration und Demokratie demonstra como sendo mais visível à esquerda, coloca desafios à democracia que ainda não foram devidamente considerados porque, embora as emoções vivam à flor da pele e dos tempos, elas são muitas vezes cegas e insensíveis. As emoções conseguem biologizar o que não é biológico; construir verdades acerca do passado a partir de memórias fabricadas; relatar a realidade presente a partir da experiência individualmente existencial. É por essa razão que as emoções da esquerda populista ainda não reconheceram, nem prática nem teoricamente, os novos ventos de máxima politização que fazem com que os barcos regressem para o outro lado da costa da ilha da pós-democracia. Nem se espera que consigam algum dia fazer.